“Garçom, por favor uma dose extra de desapego.” Era o que a garota que se escondida por traz de seus enormes cabelos no bar sussurrava. Seus olhos não eram os de Capitu, mas estavam de ressaca, lágrimas escorriam timidamente pelo contorno do rosto. A maquiagem, que antes havia demorado horas pra fazer, já estava toda borrada, deixando amostra as olheiras que a perseguiam. Sabia que o garçom diria a ela que não teria desapego pra vender, mas em meio a tantos devaneios e desilusões, restava um pingo de esperança que encontrasse a fórmula do desapego pra vender. Afinal, esse seria o único jeito que ela conseguiria seguir em frente, se desapegando de todas as dores e decepções do passado, deixar que as memórias que a quebravam para traz e começar a criar memórias que a reconstruíssem. Repetiu mais alto, para ver se o garçom ouvia, mas a pergunta continuo a pairar no ar, sem uma resposta, sem nem uma exclamação. Desistiu do desapego, e voltou pra vodca, assim pelo menos podia rir do nada e não lembrar de seus problemas. Com um copo cheio da mão, acendeu o cigarro, e baforou a fumaça pouco a pouco, vendo as pessoas andarem através da fumaça, ficando turvas e sem formas, desejando que seu mundo fosse tão alegre quanto a bebida o tornava. A ponta do cigarro ia queimando aos poucos, e em seus delírios mais loucos, ela chegou a comparar o cigarro com o seu coração, de modo que ambos começam novos e sem defeitos, e terminam por serem deixados para traz, sem mais função, destruídos. A fumaça do cigarro invadia seu pulmão, o álcool já lhe subia a cabeça, o mundo tornava-se cada vez mais turvo e divertido. Sentada em sua mesa, a garota, que antes estava a chorar, havia estampado um sorriso belo ao rosto, começou a imaginar os diálogos mais engraçados, chegou até a fazer o Sr. Copo e um Tio Cinzeiro conversarem, uma conversa bem engraçada diga-se de passagem, eram coisas banais, mas que a faziam rir. Afinal, essa garota dos cabelos morenos, havia se cansado de tanta falsidade e ilusão em sua vida, pessoas que diziam ama-lá mais que tudo, mas no fundo, ela era apenas um curativo, assim como seu grande amigo caio, havia certo dia dito “A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?”. E essa estava sendo a função dela naquele momento, havia dado todo o seu amor, entregue seu coração, e veio a descobrir que era apenas um curativo, e que ainda não era dos melhores. Terminou seu primeiro copo aos risos, e pediu outro ao garçom, acendendo outro cigarro logo em seguida, sem mesmo traga-lo, apenas vendo a chama consumir toda a droga envolta em papel. A fumaça já estava por cobrir todo o bar, as risadas ao fundo divertiam a garota, seu banco mais parecia uma roda gigante, nada mais estava parado, e ao fundo, uma voz estridente, sussurrou: “anjo…”. Ela sabia da onde vinha essa voz, sabia de quem era, e o dono dessa voz, vinha a ser o motivo de ela estar aqui, tão desiludida, tão mal amada. Respirou fundo, engoliu as lágrimas que começaram a escapar de seus olhos novamente, deu um ultimo trago no cigarro, um gole no copo, e abandonou o bar, saindo na rua, e sentindo a brisa bater em seu rosto e esvoaçar seu cabelo, sorriu, e decidiu que a partir daquele momento, se tornaria uma nova mulher. […]